
Uma vez fui passar um período de férias na casa de uns conhecidos no interior. Poucas pessoas estavam na casa, somente meu namorado (hoje meu marido), uma irmã dele e um sobrinho adolescente que passava uns dias por lá. Naquela ocasião me coloquei disposta a realizar os afazeres da casa, assim passaria o tempo e me sentiria últil. Enquanto cozinhava, minha cunhada me espiava, o sobrinho dormia no sofá e meu namorado saía para o trabalho pela manhã. Mas nesta história o que interessa mesmo é o gato.
Eu nunca fui fã de gatos...embora tivesse convivido com alguns. Na casa das minhas primas, por exemplo, sempre havia um gatinho sendo domesticado. Uma vez uma delas me telefonou de madrugada chorando, contando que o siamês dela tinha se jogado da sacada do prédio...eu entendi a tristeza dela, pois perder alguém querido é sempre um momento difícil. Mas o que eu nunca consegui entender era como as pessoas se apaixonavam por gatos...
Sempre achei o felino um animal super interesseiro, preguiçoso, mandão...já que quando quer alguma coisa ele chega de fininho, faz cara de pidão e se você não o atender, ele te arranha sem dar pistas e sem a menor culpa. Diferente do cachorro que logo demosntra que não gostou de você, rosnando, e faz carinha de arrependido sempre que sabe que fez algo que não devia.
Tem gente que diz que os gatos são animais super inteligentes, por isso nem todo mundo gosta, por não entender seu modo livre e independente de ser. Eu sempre achei que gatos só vinham pelo interesse e que nunca se apegavam aos seus donos, porque eram autosuficientes demais. Pulam muros atrás de comida, podem passar o dia todo fora de casa se divertindo com outros pelas ruas, dormem sozinhos escondidos em armários e quando querem comida ou carinho aí eles dão o ar da graça...daquela forma pedante...se esfregam, se enroscam, fazem charme...enfim...são individualistas demais pro meu gosto!
Mas o Tedy era diferente...
Tedy era o gato que vivia lá pela casa do meu namorado. Ninguém ligava pra ele. E por isso ele passava o dia fora de casa caçando o que comer, mas sempre voltava. E quando estava em casa ele ficava por entre o sofá, tentando encontrar uma mão dando mole para que ele fosse pedir afagos.
Eu sou apaixonada por animais, sem nenhuma excessão. Mesmo achando que os gatos não mereciam eu nunca tratei mal, pelo contrário, era sempre um motivo a mais para eu tentar entender estas criaturas. Mas confesso que o Tedy foi o único que ganhou meu coração. Eu o acarinhava, mesmo com receio que ele me arranhasse, embora ele nunca desse pinta de que faria tal coisa. Ele subia no sofá quando eu estava deitada e procurava minha mão, se colocava ao lado dela e se esfregava. Me olhava nos olhos, encarando, e com um toque sutil, me lambia devagarinho e começava a brincar.
Todos os dias eu pedia leite pro meu namorado. Mas ele dizia que não era para eu sustentar o bichano no leitinho, porque ele já estava grandinho e sabia ir atrás de sua própria comida. Ah! eu não me contentava...comprava leite, deixava um pouco escondido, fazia o leite talhar (virar coalhada) assim ninguém tomava e então ele passava a ser do Tedy...e Tedy adorava!
Sem falar que eu dava comida escondida pro gatinho.E nas tardes, colocava ele no sofá e acariciava seu corpo enquanto via televisão. Eu simplesmente adorava ele! Quando os meninos chegavam, o gato se escondia, porque quando a criatividade para a brincadeira terminava, sempre sobrava pro bichano...colocavam ele dentro de sacolas, amarravam na goiabeira e deixavam ele lá...quase sufocando, eu desesperada gritava para que tirassem, e os meninos riam...era um horror! Fora quando pegavam o pobre e atiravam ele no telhado...o coitado sumia!
Mas voltava...e a coalhada estava esperando ele, geladinha, a comidinha estava lá...graças à mim! Acho que aquelas férias foram as melhores do felino...porque depois que vim embora, semanas depois, me contaram que Tedy, simplesmente, havia sumido. Nunca mais voltou! Ninguém soube dele, também ninguém notava ele por lá, ah! não ser pra pendurá-lo na goiabeira. Se morreu ou se mudou de casa...nunca ficamos sabendo.
A única coisa que descobri é que basta ter disposição para amar, assim descobrimos novas cenas, novos valores e virtudes que antes não podíamos nem sequer enxergar, porque o preconceito era tamanho que tapava tudo.
E depois que começei a enxergar com novas lentes, percebi que cada um tem seu jeitinho de ser e todos são muito especiais. Basta se dispor a enxergar o outro sem amarras e aceitar as diferenças!